escolher ficar
vamos, juntos, olhar pra dentro?
O que eu vou vestir hoje à noite? Preciso passar no mercado. Será que vai dar tempo de terminar o texto? Tenho que reagendar aquela reunião de amanhã. Esqueci de comprar shampoo.
Quanto tempo já passou?
As perguntas surgem em sequência enquanto eu permaneço sentada no sofá de casa, com as pernas cruzadas, os olhos fechados e um resquício do cheiro de óleo de lavanda que coloquei nos meus pulsos alguns minutos antes.
Apesar de ter estado ali, estática, por dez minutos, devo ter conseguido, de fato, meditar por alguns breves segundos.
Termino e abro meu pequeno caderno de capa cor-de-rosa, que tornou-se uma espécie de diário das minhas emoções. Escrevo todos os pensamentos que surgiram e, surpreendentemente, sinto um certo alívio.
Antes, talvez, estaria frustrada. Cansada por, de novo, perceber que fui vencida pelas preocupações.
A voz da minha psicóloga surge baixinho na minha mente, lembrando da inevitabilidade das preocupações.
Elas vêm, mas eu posso escolher ficar.
E hoje, eu consegui ficar.
Ouvir e reconhecer, mas não reagir é a única forma de passar pela vida de um jeito menos pesado.
Haverá, sempre, novas entregas, compras a fazer, reuniões a marcar – e se nos deixarmos soltos demais, vamos acabar sempre engolidos pela próxima tarefa.
É preciso se frear antes que as preocupações te atropelem – e tirem o que há de mais precioso na vida: a paz, a calma, o momento presente.
Quando embarco em uma preocupação, deixo de enxergar o mundo à minha volta. Não há espaço para mais nada além da ruminação.
É uma forma de ir apequenando a vida – se afastando de si e dos outros na crença de que não há nada maior e mais importante do que resolver aquela preocupação.
Escrever é a minha forma de ganhar perspectiva e aliviar o peso das inevitáveis apreensões do dia a dia.
É como se as palavras me fizessem dar um passo para trás. Quase como se eu saísse do meu corpo e me tornasse outra para mostrar um novo caminho possível.
O problema é que nem sempre posso escrever – e, por vezes, a preocupação corre mais rápido do que a minha consciência. Reajo – e ela toma o meu corpo.
Entendi que, em partes, a preocupação é necessária pra mim. É por ela existir que eu sou capaz de planejar, organizar e realizar aquilo que me comprometo. Mas quando a dose é demais, torna-se veneno.
Não há organização capaz de aliviá-la.
Saber diferenciar as preocupações que valem a pena acolher e aquelas que é preciso deixar passar é um treino constante.
É preciso consciência – para se perceber –, autocompaixão – para se acolher –, autocontrole – para não se deixar levar –, e intenção – para escolher ficar.
As preocupações sempre vão tentar nos levar pra longe.
É nossa responsabilidade assegurar que permaneceremos aterrados – com a certeza de que somos capazes de deixá-las ir.
(para, depois, saborear o prazer de ainda estar aqui).


