e se eu errar?
vamos, juntos, olhar para dentro?
Não sei se gosto ou não de cozinhar.
Mais nova, achei que poderia ser confeiteira. Ser proprietária de uma loja de cupcakes. Minha mãe chegou a comprar algumas formas diferentes e até aquele utensílio de cozinha feito para espalhar a cobertura no topo dos bolinhos.
Mas eu logo desencantei da prática. Me via tentando seguir passo a passo da receita – cada grama de açúcar a mais ou a menos poderia fazer a diferença. Por vezes, até me divertia durante o processo, mas quando alguma das etapas de preparação saía do meu controle, sentia-me extremamente desanimada.
Pior ainda era quando o cheiro de queimado tomava conta da cozinha ou eu via que o resultado final tinha ficado a mil léguas de distância da expectativa inicial.
Ali, entendi a minha primeira dificuldade: lidar com as frustrações da vida.
Mas para além disso, percebi o quanto eu evitava errar a todo custo. Era como se aquele cupcake ou torta ou bolo ou qualquer outra receita fosse a prova do meu valor – ainda que eu não tivesse nenhuma obrigação profissional ou pressão social para tal.
Era eu exigindo perfeição de mim mesma.
A gente sempre escuta que cozinhar é um ato de amor. E talvez eu tenha levado isso a sério demais. Empenhada em fazer para o outro, de alguma forma, eu esperava a validação depois da primeira mordida.
Se eu errasse, não teria isso. Se eu errasse, corria o risco de não ser amada.
Na prática, isso não era verdade. Mas na minha cabeça, sim.
Agora, mais crescida e, em alguma medida, madura, já não choro quando o tapiovo sai um pouco queimado ou o bolo passa do ponto – mas ainda me martirizo a cada falha cometida.
A gente espera começar um trabalho novo e já saber tudo. A gente espera fazer um curso e acertar todas as questões do exame. A gente espera ir ao mercado e não esquecer de comprar nada. A gente espera começar um relacionamento e ser impecável.
A gente espera fazer uma receita pela primeira vez e entregar um resultado parecido com o do chef do restaurante favorito da nossa família.
Seja a primeira ou a última vez, a gente vai errar. Um dia, a dose vai ser demais, no outro, de menos. Um dia, a gente vai esquecer de um ingrediente, no outro vai confundir o sal com o açúcar.
Talvez terá um dia em que tudo parecerá alinhado, perfeito, tranquilo. E é bom que aproveitemos o sabor, com orgulho e consciência.
Mas a única certeza é que enquanto estivermos fazendo – seja o que for – vamos estar suscetíveis ao erro, a falha, ao esquecimento. A única forma de abdicar da possibilidade de errar é abrir mão de fazer — e em última instância, de viver.
Muitas vezes, a pressão de dentro é a que mais machuca. É preciso se reconhecer como um ser falho, mas não menos valoroso.
Não sei se gosto ou não de cozinhar – mas quero me dar mais uma chance de tentar.
ps: o amor de verdade não nasce da entrega. nasce da troca.
que a gente saiba tirar o peso do erro e acolher a nossa própria inabilidade de ser primoroso.


